Publicado por: animo30 | 1 de Dezembro de 2008

MATINAS:DEUS NÃO É DIFICIL

ceu

O deus das explicações não tem piada nenhuma, quer dizer, Deus é muito Mais que as nossas explicações, quer dizer da nossa vontade em resumi-Lo a uma explicação que nos deixe de uma vez por todas descansados.Sim, Deus, dá muito trabalho, tanto que, quando menos se espera, consigo descobri-Lo na beleza das linhas desta muito antiga casa beiroa, do seu candeeiro de uma metalurgia tão inicial…O único trabalho que Deus dá é o de que eu, sempre que quiser, dê por Ele.

Sim, começo a sentir o que são os vislumbres de Deus e até não é assim tão difícil.Mas dá trabalho.

Eu gosto de trabalhar.Ora et Labora.

antónio colaço

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Do Público de ontem, enquanto Frei Bento não envia, tal como o Pe Anselmo, as “cinco linhas” que lhes pedi sobre “WEBANGELHO ou o papel das novas tecnologias ao serviço da Palavra”.

 

freibentodomingos1

Bíblia e fundamentalismo
30/11/2008    Frei Bento Domingues O.P.

 
Quando se tomam as afirmações bíblicas como ditados divinos, perde-se o sentido da transcendência de Deus1.Alguns leitores acharam estranho que, no domingo passado, me tivesse referido à expressão “Palavra de Deus” como se de uma metáfora se tratasse. Não é a própria Sagrada Escritura que se apresenta como realíssima Palavra de Deus? E, no primeiro escrito cristão, não afirma S. Paulo: “Agradecemos a Deus por terdes acolhido a sua Palavra que vos pregamos não como palavra humana, mas como na verdade é, a Palavra de Deus que está produzindo efeito em vós, os fiéis” (lTs 2, 13)? Existe, portanto, diferença entre palavra meramente humana e Palavra de Deus.
Sem dúvida, mas quem reflectir no que significa “metáfora” – transgressão do imediato sentido, transposição para novas significações – só pode desejar que essa expressão recupere a força ilimitada do seu mistério. Uma metáfora que se banaliza é uma metáfora morta (1).
É uma ilusão supor que podemos adoptar, em directo, o ponto de vista de Deus e, a partir daí, distinguir o que é humano e o que é divino, como se fôssemos entidades que os transcendem e os fiscalizam. As consequências dessa ilusão manifestam-se quando seres humanos colocam na boca de Deus aquilo que eles dizem e escrevem como se fosse o próprio Deus a dizer e a escrever. A Bíblia está cheia de declarações desse teor. Por vezes, o que é posto na boca de Deus só ficava bem na boca do Diabo. Quem assim faz, pensando glorificar a Deus, está a ofendê-lo e a tornar impossível reconhecê-lo como a verdade e a beleza do amor infinito. Por outro lado, quando se tomam as afirmações bíblicas como ditados divinos, perde-se, irremediavelmente, o sentido da transcendência de Deus e dos ziguezagues da história humana.

2.A Comissão Pontifícia Bíblica elaborou um documento – A Interpretação da Bíblia na Igreja – sobre a pluralidade de métodos de investigação dessa admirável biblioteca hebraica e cristã. Não é para restringir essa pluralidade que o documento é extremamente severo em relação a identificações idolátricas: “O problema de base da leitura fundamentalista é que, recusando levar em consideração o carácter histórico da revelação bíblica, torna-se incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Incarnação. O fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Recusa-se a admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado, palavra por palavra, pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada numa linguagem e numa fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Não dá nenhuma atenção às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e com a marca de situações históricas muito diversas.”
A Mensagem final do recente Sínodo dos Bispos (24.10.2008), depois de observar que todos deveriam conhecer e estudar a Bíblia, também sob o seu extraordinário perfil de beleza e fecundidade humana e cultural, destaca que a Palavra de Deus não está presa a uma cultura. Aspira, pelo contrário, a atravessar fronteiras e recorda o exemplo de S. Paulo, artífice excepcional da inculturação da mensagem bíblica em novas coordenadas culturais (2Tm 2, 9).

3.Neste Ano Paulino, não basta louvar a ousadia imensa desse grande Apóstolo de há dois mil anos. O Sínodo insiste em que é, hoje, que a Igreja está chamada, mediante um processo delicado, mas necessário, a fazer que a Palavra de Deus penetre na multiplicidade das culturas e expressá-la segundo as suas linguagens, concepções, símbolos e tradições religiosas, vigiando e guardando a substância dos seus conteúdos, para evitar o risco da degeneração. A Igreja tem de fazer brilhar os valores que a Palavra de Deus oferece a outras culturas, de modo a purificá-las, fecundadas por ela. O Sínodo não esquece a formulação mais ousada do processo de inculturação, apresentada por João Paulo II ao episcopado do Quénia, na sua viagem à África em 1980: “A inculturação será realmente um reflexo da incarnação do Verbo, quando uma cultura, transformada e regenerada pelo Evangelho, produz, na sua própria tradição, expressões originais de vida, de celebração e de pensamento cristão.”
A linguagem humana, sobretudo nas suas expressões musicais e poéticas, é um acontecimento de excesso de significação, uma abertura que não consente horizontes fechados. É, por natureza, uma contínua violação de fronteiras. Pode, por isso, acolher sempre novas significações. A linguagem simbólica é movida, precisamente, pelo que lhe falta, não pelo que tem. É a linguagem do Advento, desafiando todos os limites. Quem tenta interpretar a Palavra de Deus comece por libertá-la da letra que mata, para a deixar entregue ao Espírito que a faz viver (2Cor 3, 2-6).
(1) Paul Ricoeur, Teoria da Interpretação, Lisboa, Edições 70, 1996


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