Publicado por: animo30 | 22 de Janeiro de 2009

SAUDADES DE CARDIGOS

mariafreire

TENHO SAUDADES DE CARDIGOS!

Quando eu era pequenina sonhava em ter uma casa grande,
Uma família unida, como tinha naquela altura.

Sonhava em ter muitos filhos para encher essa casa.
Quando era pequenina eu sonhava em ter um jardim com muitas árvores para fazer uma casa na árvore como tinha na casa do Avô, queria ter uma família grande para, na noite de Natal, rodarmos e cantarmos à volta da fogueira grande da Praça fria.

Oh! Como eu tenho saudades desses Natais, em Cardigos, na casa do Avô…

matrizcardigos

Corríamos pelos campos que o Avô cedia generosamente, às famílias numerosas de ciganos (nómadas) e assistíamos às suas festas e rituais, eram mágicas as férias do Natal em casa do Avô.
Tenho saudades de andar pela adega e de me esconder por entre as numerosas pipas de vinho que eram três vezes maiores do que eu, tenho saudades de ver os Homens da aldeia, no lagar, enquanto cantavam e pisavam as uvas fazendo um belo vinho que a Avó Titina punha açúcar porque fazia bem ao coração.

Tenho saudades de ir dar palha ao macho, dos passeios pelo Vale da Lagoa, pelo Vale Fagundes, em cima da carroça do macho com o Tio Manel, sempre a tocar guitarra e a cantar, tenho saudades da apanha da azeitona, de apanhar castanhas e de me picar para lhes tirar a casca, tenho saudades de apanhar morangos da terra, todos muito alinhados, sentir o seu maravilhoso cheiro, passá-los pela água do furo e comê-los.

Tenho saudades da Ilda que se atormentava com os “seus meninos” e que, ainda hoje, tem 42 anos, nem ela nem ninguém sabe o ano ou dia em que nasceu, por isso passou a ser dia 1 de Janeiro, o primeiro dia do ano para não se esquecer.

Tenho saudades de ouvir a Tia Guida a pedir para não corrermos nem pularmos na camarata dos rapazes, pois o lustre da sala de jantar podia cair, tenho saudades do cheiro da cera amarela do chão encerado da casa do avô, das noites de Consoada em que nos juntávamos na cozinha para ver as mulheres fazerem as melhores filhós.

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Última ceia, na Portugália, com o nosso saudoso Zé Mário.


Tenho saudades do tio Zé Mário, meu padrinho querido, das suas barbas negras, das suas gargalhadas e das histórias que ele contava.
Tenho saudades de ver o Tio Gérard a andar pelo seus próprios pés, sem precisar de ajuda de ninguém, de o ver na porta para o quintal a dar-nos adeus com um sorriso nos lábios, lembro-me de o ver com alguma agilidade a apanhar pinhas no pinhal.

Tenho saudades de ver a Tia Nucha sempre preocupada com todos, de subirmos para o telhado, às escondidas de todos, e sentarmo-nos nas velhas telhas a fumar os primeiros cigarros e a falarmos dos primeiros namorados, tenho saudades da minha família, dos meus primos, tenho saudades de como éramos uma família unida enquanto o Avô foi vivo.

Enquanto não houve partilhas.

Tenho saudades de irmos todos juntos escolher o melhor e maior pinheiro para Árvore de Natal, de arrancarmos das pedras dos muros o musgo para o presépio.

Tenho saudades dos doces caseiros, do cheiro da terra molhada, das pedras da calçada, de ver a chuva em carreiros como só em Cardigos vi. Tenho saudades de ouvir o som de um carro e vir a correr para a porta ver de quem era, era tão raro passarem carros em Cardigos.

Tenho saudades de brincar na casa da árvore… tenho saudades de ir à camioneta que chegava de Lisboa, ás 19h, para irmos comprar o jornal do dia anterior. Era tão estranho e tão maravilhoso viver em Lisboa e passar férias em Cardigos…era tudo tão diferente, tão calmo…tenho saudades de me chamarem para a mesa quando ainda havia horas certas para almoçar/jantar
Tenho saudades de ver a minha Mãe sorrir e de rir com gosto.
Tenho saudades…muitas saudades… dos tempos vividos em Cardigos.
Hoje, passados muitos anos, tenho saudades de já não ter uma casa secular em Cardigos.De já não ter um Avô, nem uma Avó…Tenho saudades…
Tenho saudades.

 

Maria Freire

 

NOTA – Meu caro Zé Mário Tavares, com que alegria nos olhos nos falavas dos teus sobrinhos. Toma, lê, vê, agora, como eles  falam de ti. É um texto com a vila de Cardigos inteira, bem dentro de si. Até arrepia. Parabéns, Maria Freire, que, em boa hora, tropeçou neste cantinho e na nossa eterna dedicação ao Tio Zé Mário. A Maria pode ser lida em

http://petalacaida.blogspot.com.

antónio colaço

 

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