Publicado por: animo30 | 12 de Junho de 2009

PERTO DO PRINCÍPIO

pai1abC

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Aljustrel, Messejana, há mais de meio século que me bailam nas caiadas ruelas da memória os nomes destas longínquas terras que o meu querido Pai, de quando em vez, entre uma indisfarçável saudade e uma contida amargura, convocava para as familiares conversas da casa térrea do Largo do Espírito Santo na altoalentejana e distante vila de Gavião que o acolhera.

Como costumo dizer, não vivo para pintar, pinto porque vivo. E porque estou vivo, mais de meio século, depois, peregrinei pela Messejana que o viu nascer, sem a sua companhia, sim, mas com o privilégio da mais que adivinhada eternidade.

aljustrelfinal3ab

Mais uma vez senti-me, como noutras ocasiões, muito perto do Princípio. É certo que partiu sem termos tido tempo de lá voltarmos os dois, toda a sua família, como sonhávamos. Apenas soube de uma infância ausente e de anos de grande carência, que, sem grandes entusiasmos, de vez em quando nos relatava.

Mas sei, sobretudo, que para o final não adivinhado dos seus dias, alimentava esse grande desejo de um regresso de cabeça levantada .

Pai, andarilho de mil trilhos, por entre os mais recônditos lugarejos altoalentejanos, beirões e ribatejanos, sei que querias regressar nem que fosse por umas horas, com toda a tua tribo.

ALJUSTRELFINAL8A

Para comermos as popias que um dia trouxeste, no regresso daquela aventura em motoreta sem mudanças. ..Como o David Lynch adoraria ter-te conhecido mais à tua Historia Real (The Straight Story, 1999). 

Pai, aqui do alto desta pequena colina, bem encostado ao torreão medieval, à sua ruína, os pés bem assentes na terra que daqui levei para te consagrar, proclamo aos quatro cantos da terra que te viu peregrinar: hoje, Pai, como tu, somos todos de Messejana.

aljustrelfinal16a

És Eterno, Pai, porque foste sempre tão terno. Obrigado por esta aprendizagem de lugares e gentes que em ti bebi mesmo quando tal significou adormecer ao colo da Mãe Maria José, noite dentro, na camioneta dos “reboliços”, a caminho de mais uma terra, a caminho de conhecer novos amigos, deixando para trás outros que mal tivera tempo de conhecer. Sim, sei agora que era assim que procuravas o melhor para nós. Mesmo que, tempos mais tarde, regressássemos ao sítio de partida. Foi nesse ir e vir, nessa itinerante sobrevivência, que em parte nos habituamos a não sofrer tanto com o que não se tem sabendo que nos tínhamos a nós como adquirido e supremo bem. Tudo para perceber, hoje, com acrescida clarividência, que o ser é mais reconfortante do que o ter. Foi nesse ir e vir que aprendi o teu incrível amor pela terra que te levava, em cada sítio que pousávamos, a desbravar silvedos e matagais para nos servires à mesa os legumes essenciais. Foi nesse ir e vir que aprendi contigo a acrescentar mais vida à vida de padeiro que levavas. Sim, foste padeiro mas também o carpinteiro dos bancos e mesas que não tínhamos, o sapateiro que nos conservava as desgastadas meias-solas  por mais alguns anos, mas, também, e, sobretudo, o grande animador das mil e umas tantas conversas entre gente habitualmente calada e que só por ti esperava para lhes desatares os nós da voz que em si traziam silenciada. Pai, com que saudade ainda me sinto por não ter desfilado contigo, pelas ruas de Cardigos, essa outra terra-mãe a que invariavelmente regressavas, na carnavalesca orquestra que, no silêncio da beiroa “aloja”, peça a peça, construíste pela picassiana reconversão de canas, latas, palmeiras, em pífaros, cornetas e mil tambores, a que juntaste trajos com seus rigores!

pai1aTb

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pai, com as tintas escorrendo pelas mãos, fiz das minhas mais recentes madrugadas, uma tímida aproximação às tuas sempre tão cansadas mãos, domando a farinha, enrolando o pão, que a todos, pela manhãzinha, nos asseguravas. Não foi canseira, Pai, e, sim, uma nobre missão: há muito que queria dizer-te que lá em casa, todos temos a tua Messejana no nosso coração. Anda, Pai, vem daí. Dá-me a tua mão!.

Obrigado, Zé Jacinto. Eu Sinto-te.

antónio colaço

NOTAS

1.Este é o texto do Catálogo da Exposição “Perto do Princípio” patente na Galeria da Biblioteca Municipal de Aljustrel até 8 de Agosto e que rumará até à Capela dos Santos Reis, em Messejana (!!!!), a partir de 15 de Agosto.

2.Atribulações várias têm impedido a  edição de alguns post! Nomeadamente, está por editar uma descida às Minas do Lousal, que, espero, seja feita na próxima semana. A qualidade fotográfica da ânimo desceu nos últimos dias – não vivo para fotografar, fotografo porque vivo!Está certo o princípio desde que  aqueles aparelhozinhos móveis de que dispomos não exijam muito. O assunto parece estar superado.

3.Alguns leitores queixaram-se do tempo que  a ânimo demorava a abrir!!! Bom, de facto, os dias não têm sido os melhores para ” abrir o ânimo” mas, o motivo que originou, cremos, foi a disponibilização total das imagens da exposição “Abril, ânimos mil”! Solução: retirámo-la, a exposição, claro, do ar! Quem quiser pode pedir por mail que enviaremos!

E pronto, uma grande noite de Santo António!!!Tomem lá manjerico para …animar!

manjericos

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: